top
Mostrando postagens com marcador Prosa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Prosa. Mostrar todas as postagens

domingo, 4 de maio de 2008

Diálogo sobre o tempo

            (ou Experimentando o que eu acho que se chama escrita livre)




A: Aqui neste quarto faz tanto tempo agora. Apesar de aqui não haver nenhum relógio marcando os segundos eu sinto como se cada canto estivesse permeado por todo o tempo.
B: Eu não sinto nada do que você está dizendo. Me sinto bem... Sinto um cansaço.
A: Também sinto o mesmo, pelo mesmo motivo que você, mas não consigo desligar minha mente dessa sensação.
B: No máximo, eu consigo sentir um pequeno sentimento de agora. Deve ser o sono chegando em mim. Você tomou muito café hoje.
A: Talvez. Aliás, o dia de hoje me soa como algo distante, como se tudo que eu tivesse feito já tenha sido a muito tempo atrás. Como se a muito tempo, tirando essa reflexão, eu não fizesse nada.
B: Não sei se entendo muito bem o que você quer dizer.
A: É como se, pra mim, o agora fosse muito menor do que todo o resto do tempo.
B: Uhm. Não sei, me parece que eu não fiz nada durante todo esse tempo que você fala, exceto agora.
A: Como assim?
B: É como se pra mim não existisse muito essa noção de tempo. Acho que, por eu não conseguir pensar muito no tempo, talvez ele exista menos para mim do que para você.
A: Entendo. Mas assim me parece que você tem bem mais tempo do que eu, só não sabe disso.
B: Se for, acho que não sei mesmo. Pelo menos assim eu uso esse tempo pra fazer inveja nos outros (sorriso).
A: (sorriso) É...
B: .

A: Acho que agora sou eu que estou com sono.
B: Eu já perdi o meu. Vem cá...

sábado, 30 de junho de 2007

Metros e Fulanos

Não sabiam muito bem quando ou quem havia começado aquela rotina de olhares tortos. Quando um passava distraído, era o olhar do outro que chamava a atenção de volta. E como achavam chato viver sempre sob a mira de olhares tão indiscretos.

Dia sim, dia não, o casal de fulanos seguia com a sua rotina de casal. A rotina deles era apenas os olhares indiscretos e invasivos os quais tentavam disfarçar em vão, que iam gradualmente ficando mais intensos e incontroláveis. No resto do dia se questionavam o porquê daqueles olhares trocados entre dois desconhecidos. Ela pensava: "Até que é bonitinho". Ele pensava: "Ela deve me achar um psicopata". Ela achava um pouco disso, mas não podia ter certeza.

Eles tinham o incrível azar de sempre se encontrarem por aí, de cara surpresa, morrendo de medo de não se esbarrarem. Achavam que isso incomodaria ao outro. Reclamar dos olhares eles não podiam, mas de um esbarrão, quem sabe?

Completando um mês de relacionamento, quase como um presente da data, descobriram os nomes um do outro. Não mudou muita coisa. Mais um mês e se aproximaram o suficiente, contra as suas vontades, e puderam se escutar conversando com outras pessoas. As vozes eram bastante diferentes do que imaginavam: não eram espalhafatosas, depressivas ou sensuais. Eram comuns. Acharam estranhas para pessoas tão especiais.

A vida sexual do casal era bastante ativa. Fulana gozava em seus próprios dedos imaginando fantasias com Fulano, que por sua vez, jorrava tinta de caneta em poesias eróticas. Se masturbava pensando nela também, mas com menos freqüência com que escrevia.

Depois de três longos meses de relacionamento, Fulano começou a ficar com Marcela. Fulana nunca soube disso, mas mesmo assim notou que Fulano estava diferente. Seus olhares já não eram os mesmos e nem tão freqüentes como antes. As fantasias de Fulana perderam o encanto quando ela perdeu seus olhares. Fulano passou a escrever poesia sobre Marcela e sua nova paixão e agora já não precisava mais se masturbar.

Sem discussão ou drama terminaram o relacionamento. No final do mesmo ano, Fulana foi morar no nordeste, onde pode saciar suas vontades com um primo. Fulano começou a namorar firme. Algum tempo depois, ainda namorando com Marcela, sentiu que algo faltava na sua rotina, mas não sabia dizer muito bem o que era.

quarta-feira, 28 de março de 2007

Box

Levantou-se do chão após várias tentativas e foi tomar um banho. Queria se tocar, mas sem gozar. Não gostava o suficiente dos seus orgasmos.
Pegou uma toalha, roupas e entrou no banheiro, mas não ia funcionar. Já esparava a depressão, mas em menor intensidade.
Entrou no box, ligou o chuveiro e se vendo longe dos olhos das outras pessoas se sentiu pior. Começou a chorar como a muito não chorava. Grunhiu involuntariamente pela garganta como um animal. E pensou o quanto tudo aquilo era horrível, sentiu desgosto pelo seu estado deplorável, sentiu ódio do mundo. Mas continuou com a cara limpa, apesar do choro não derrubou uma única lágrima. Continuou o seu banho quase normalmente.
Saiu do box e enquanto se secava olhou para o espelho. Esperava encontrar-se horrível, mas teve a sensação de que poderia vender o seu corpo facilmente com um pouco de maquiagem. Não olhou nos olhos como costumava. Nem tomou fôlego, abriu a porta do banheiro deixando a toalha molhada e a roupa suja para trás.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

24 horas com cara de umas 10 das lentas

Noite de céu escuro. E já estava com saudades de noites com o céu assim, o céu dessa cidade costuma ser avermelhado, cor de vinho. Me questiono se o homem já chegou ao ponto de mudar a cor das madrugadas.
Noite quente, antecedida por um dia mais quente ainda. Não lembro de ter dormido muito na madrugada passada, mas lembro de ter tido um sonho. Não sei se prefiro os sonhos de hoje ou a época em que eu não sonhava (ou pelo menos não lembrava deles). Alguns sonhos parecem servir apenas para dar alfinetadas na gente com lembranças indesejadas.
Sigo o resto do dia com sono e grudento, o ventilador parece não ventilar o suficiente. Deitei no chão pra tentar ajudar, tentei meditar. Ambos falharam.
A água estava com gosto de sabão, fui tomar um sorvete picolé. Sentei num banco, conversei, dei risada, deitei no mesmo banco, tirei os óculos, coloquei eles de volta, terminei a conversa contra a minha vontade.
Escureceu e veio a parte mais difícil de lembrar do dia. Dormi depois de assistir a um desenho. Depois acordei e comi um sanduíche. Tive uma sensação ruim de incapacidade em saciar minhas vontades que durou pouco mais de uma hora.
Olhei pra um brinquedo que comprei esses dias, que aparentemente é feito de uma bexiga verde com massinha dentro, cabelo vermelho e olhos negros. Modelei nele um sorriso bobo e amarelo. Abri a cortina como quem abre a porta da geladeira e olhei pro céu. Escrevi um texto no computador e algum tempo depois fechei a janela.